Sexta Literária

Nunca faça cócegas num dragão adormecido

By on dezembro 9, 2017
"A gente pode ressentir o passado, negá-o ou viver nele. De um jeito ou de outro, ele continua lá. Melhor lidar com ele escutando musiquinhas antigas e se pocando de rir," http://bit.ly/2jaqJO2

Minha adolescência e o final da minha pseudo-adultice, neguei bem mais do que 3 vezes. Foi em legítima defesa, disse a mim mesma. Tentei matar as eus anteriores, as versões de mim que existiram, as que poderiam ter existido e as que nasceram causas perdidas. Não me pergunte quem era quem, ou como elas ainda estavam vivas, só sei que nada sei. Bom, talvez, no fundo, eu saiba as respostas dessas duas perguntas…

Sabe quando algo dura o tempo que tinha de durar e depois é como um produto fora da validade?Não vou dizer que foi ruim, também não foi tão bom assim….A era de sucata, no entanto, tinha outras ideias, não contentava-se em ficar no passado. Mesmo assim, a eu do presente ignorou as presentificadas, enterrou-se até o pescoço em novos problemas e nas consequências de erros que tornaram-se velhos depois de tanto repetidos. Revivals, dispenso.

Menina dando de ombros: "Nunca nem vi."
Tenor. Nunca nem vi.

Até que… eis que o Spotify me sai com uma playlist personalizada: “As Mais Ouvidas de 2017.” Não chegava a prometer me levar de volta como a Máquina do Tempo, mas o convite estava feito. Eu disse a mim mesma, “Não faça cócegas no dragão adormecido,” e cliquei quase imediatamente. Se o passado me condena ou não? Nem nego, nem confirmo, prefiro não comentar. A playlist, contudo, aparentemente tinha bastante a dizer: foi de “se tem um pouco de mim no seu coração, então não casa não” a “nem por você, nem por ninguém, eu me desfaço dos meus planos“, passando por “será que eu já posso enlouquecer ou devo apenas sorrir?” e “o que é que eu vou fazer com essa tal liberdade se estou na solidão pensando em você?”, com direito a “Evidências” e “New Rules,” minhas mudanças de humor rápidas como são.  Deixou de fora, apenas, aquela música que nunca consigo escutar até o final. Tenho medo de ela ser um cavalo de Tróia, assim como as musicas que estariam nas finadas “Mais Ouvidas” dos anos anteriores. 

Charlie de As Vantagens de Ser Invisível ouvindo música.
WiffleGif.

No final das contas, a gente pode ressentir o passado, tratá-lo como um dragão adormecido e torcer para que ele nunca seja cutucado, negá-o ou viver nele. De um jeito ou de outro, ele continua lá. Melhor lidar com ele escutando musiquinhas antigas e se pocando de rir com uma pitada de auto-schadenfreude (palavra alemã que significa a alegria que se sente ao presenciar as desgraças alheias. Sim, eles têm uma palavra para isso.)

Me conte: o que tem na sua playlist de “Mais Ouvidas de 2017”? Se gostaram, não se esqueçam de curtir e compartilhar 😉

*créditos da imagem destaca: Heidi Sandstrom. no Unsplash

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