Sexta Literária

E Eu Faço o que com a Nossa Vida Genial?

dezembro 16, 2017

Você foi viver outra vida, eu fiquei aqui. Nessa tal vida que me restou. “Resto” é uma palavra tão…. inadequada para descrever a vida, ainda mais a minha. Você só foi embora, não morreu, nem teve nada a ver com minha queda — eu que fui o incêndio, o avalanche e a vítima. E mesmo se tivesse… bom, não foi o primeiro. Será o último? Acho difícil. A vida que eu tive, que poderia ter tido e que eu terei é problema meu, só meu, e não de quem quiser.

Você foi viver outra vida, eu fiquei na vida que restou. "Resto" não é uma boa palavra pra descrever uma vida. Ainda bem que minha vida genial é adaptável, bit.ly/2CJnnX1
Não pertenço a nenhuma cidade. Não pertenço a nenhum homem.

Bem-resolvida eu, né? Nem parece que, “quando eu te vi fechar a porta, eu pensei em me atirar” no canal raso e levemente repugnante na frente do colégio. Eu não morreria — não instantaneamente, pelo menos. Talvez pegasse uma infecção mortal, mas sou meio inconsequente; por sempre ter achado que os conflitos da minha história acabariam num deus ex machina em vez de na superação da heroína. Era só pra fazer cena, na verdade. Não me julgue, meu bem. Rejeitada, sim, mas fui ignorada pouquíssimas vezes, ainda estou aprendendo a lidar. “Desculpe o auê, eu não queria magoar você.” Apesar de eu ter oscilado entre te assistir ir embora sem soltar uma palavra, a jogar todas as suas coisas pela janela e dar a rua toda uma alternativa ao Domingão do Faustão, eu te amei como os conquistadores amaram a Rússia. 

Da próxima vez… fico calada, faço questão de inventar uma desculpa para minha cara fechada que não soe tão esfarrapada, e me mando.Pode ficar aqui, sou eu quem vou partir.” Sem escândalo, sem agressividade mal-disfarçada de passividade. Junto os caquinhos da minha dignidade e saio de fininho; duvido que o próximo você perceberá se eu não me despedir. Você não teria percebido. 

Você foi viver outra vida, eu fiquei na vida que restou. "Resto" não é uma boa palavra pra descrever uma vida. Ainda bem que minha vida genial é adaptável, bit.ly/2CJnnX1
Ceci n’est pas un amour. É só a representação de um amor.

Nossa vida genial se esbarrou comigo algumas vezes. Me derrubou uma vez, derrubei ela uma vez ou outra. Na maioria, soltei um muxoxo e senti o gosto da amargura com uma pitada de desdém. Podia ser a gente, mas você não quis. Mas, meu bem, se fosse a gente, eu não seria eu. Por isso, se é que algo já foi nosso, deixo pra trás.  Pra quê tornar-me acumuladora de planos que só foram futuro do pretérito do indicativo? Faça deles o que quiser: descarte-os ou queime-os, ou, se ainda não tiver o feito, guarde-os. Como o nosso amor se acabou, eu de você não quero nada. Não processarei o universo por danos morais, munida de nada além de convicção algumas testemunhas. Preciso de um longo tempo em relação a nós dois, mas acho que o final já está decido, né? Espero que o seu seja feliz, como o meu.

Ainda bem que a minha vida genial é adaptável.

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